Pascal – A miséria e a grandeza humana

(Texto de Fabiano veliq)

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Blaise Pascal nasceu em Clermont-Ferrand em 19 de junho de 1623, e era filho de Étienne Pascal e Antoinett Bégon. Pascal desenvolveu bastante seu lado religioso e escreveu várias coisas que defendiam o cristianismo. Sua obra filosófica mais conhecida são “os pensamentos” onde Pascal faz uma apologia ao cristianismo, e expõe suas idéias sobre vários assuntos que vão desde o homem até Deus. Ele foi bastante influenciado pelo pensamento de Descartes, pensamento esse, que foi um pouco contestado em sua obra. Pascal possuía também um conhecimento extenso da filosofia grega antiga e as de sua época. Sobre a filosofia grega, Pascal cita Epiteto e a filosofia estóica. Sobre a filosofia de sua época, ele cita Montaigne e Descartes como citado acima. Pascal se preocupava muito com o homem e sua relação para com Deus.

A questão da antropologia pascaliana é um tema de muito estudo para aqueles que  se dedicam a estudar os pensamentos de Pascal, pois ele trata a questão de uma forma bem particular dentro do contexto de sua obra. O problema da miséria e grandeza do homem é o que será tratado neste trabalho usando como base  os próprios pensamentos de Pascal.

Para ele, a questão da miséria e da pobreza está inteiramente ligada com a natureza humana. Segundo Pascal, o homem possui duas naturezas. A primeira natureza seria aquela que o homem teria antes de sua queda no Paraíso. Pascal considera o homem como um ser criado por Deus e que pela cobiça foi condenado a sair do Jardim do Éden e com isso perdeu o convívio direto com Deus. Para Pascal , com essa queda, o homem passou a agir de acordo com sua segunda natureza, que é totalmente corruptível e capaz de fazer tudo aquilo que é mal. A queda do homem gera nele uma insatisfação por ter perdido o seu contato íntimo com Deus. Pascal considera o homem destituído de Deus, e só pode retornar a Ele por meio da graça salvadora de Deus.

Pascal difere de forma bastante clara a primeira e a segunda natureza. Para ele a marca da primeira natureza é o conhecimento do dever e o da segunda natureza é o fato de ele não conseguir realizar isso por ele mesmo, somente pela graça.

A questão da grandeza do homem está em reconhecer sua miséria sem Deus. O homem tenta preencher esse vazio que é sua vida sem Deus através das vaidades, criando com isso uma realidade que não é real. Pascal não chega a negar a vida terrena, mas ele coloca em vários de seus pensamentos que a eternidade, que é uma busca do homem é mais importante do que o curto espaço de tempo a que estamos destinados a viver. Nisso também reconhece-se a nossa miséria, no fato de sermos limitados em nossa justiça e em nossa moral.

Para Pascal, a nossa miséria, nos faz dar mais importância a coisas que não são tão importantes assim, segundo ele, queremos ser justos, mas como seres miseráveis que somos, nossa justiça não passa de trapos de imundícia.

Pascal intercala a miséria com a grandeza. O homem é grande porque pensa, e através deste pensamento ele consegue  se compreender e compreender o mundo que o cerca. Conhecer-se miserável, é ser grande. O pensamento torna o homem grande, e por esse pensamento podemos entender conhecimento.

Para Pascal aquilo que é natureza dos animais, no homem é o símbolo de sua miséria, pois o homem decaiu de uma natureza melhor e vive em uma natureza inferior. O homem só se sente infeliz  porque um dia já foi feliz. Por isso a insatisfação do homem. O homem está sempre insatisfeito porque busca sua união com Deus que foi perdida com a queda. Essa queda provocada pelo orgulho  e desobediência de Adão. Pascal se apropria de muitos textos bíblicos para justificar suas proposições a respeito do ser humano; essa posição mostra sua preocupação em colocar Deus acima do homem e esse homem totalmente dependente de Deus. O homem não possui uma “razão” mas que tudo o que ele possui vem de Deus, e que só ele pode fazer com que o homem possa alguma coisa.

Segundo Pascal, o homem sempre esta em busca de Deus, e é isso que o torna insatisfeito, ele por si só não consegue alcançar a Deus. Mas Deus pela sua graça, se revela ao homem e o faz vê o quanto o homem é miserável. O paradoxo da grandeza se estabelece nesse momento, pois o fato do homem reconhecer que ele por si só não consegue alcançar a Deus, se vendo assim, como um ser miserável, o torna grande; pois os animais não possuem essa consciência. Segundo Pascal, o homem que não conhece sua miséria, em nada difere do animal.

O homem, portanto, para preencher esse vazio deixado da queda no qual ele perdeu o seu contato com Deus, começa a se ater em coisas vãs, as quais Pascal cita como vaidade. A vaidade, é em si algo que não tem nenhum valor, e por isso ela é fácil de ser usada como máscara, o preenchimento se baseia em se encher de algo, que no caso do homem geralmente é preenchido por algo sem valor que não passa simplesmente de uma busca por Deus, no sentido em que , tudo que o homem quer é voltar para Deus. Pascal coloca essa questão de forma bem clara, quando afirma que a segunda  natureza do homem é totalmente dependente de Deus, por ser corruptível.

O problema da miséria e da grandeza do homem é uma assunto de várias abordagens de Pascal, e ele coloca isso de várias maneiras. Segundo Pascal, o homem é um meio termo entre o nada e o infinito; pois se comparado ao nada, ele é tudo; se comparado ao grande ser universal, ele é nada, ele é portanto um meio termo nessa relação que ele estabelece com Deus e com a natureza.

Tendo visto essas coisas, podemos definir a grandeza do homem como a consciência de sua miséria, é isso que o faz diferente dos animais. O homem insensato para Pascal é aquele que ainda não teve ainda a consciência de sua miséria, e busca no divertimento, ou na imaginação uma fuga de seus problemas, ficando dessa forma, alheio de sua real condição e tenta viver uma falsa felicidade que no final das contas verá que não passa de mera fascinação com aquilo que não o deveria preocupar tanto, que é essa vida terrena. O homem deve portanto através do pensamento atingir a consciência de sua miséria, e só assim ele poderá ser feliz e viver bem.

Essa vida só tem sentido, quando aquilo que se faz, é feito por amor a Deus e a ninguém mais. Pascal, afirma que o homem precisa de Deus, e só pode fazer as coisas que ele faz se Deus o estiver agraciando. O homem é, portanto, um ser que ao mesmo tempo tem uma diferença singular dos outros animais, pois é o único que pode ter a consciência daquilo que ele realmente é, tornando-se assim grande, e não passa também de um ser que em vários aspectos se assemelha aos animais, pois ele é perecível por causa da sua desobediência. O homem devido a sua antiga natureza torna-se insatisfeito e busca preencher essa falta de várias formas, e geralmente em coisas vãs. A única solução para o ser humano, segundo Pascal é refugiar-se em Deus. Vemos aqui uma forte influência do pensamento agostiniano, que afirma que o homem deve se refugiar em Deus. Fonte de vida e esperança; segundo Pascal, o homem só busca a Deus porque ele ainda não o encontrou, e é isso que dá sentido a vida do homem, essa busca pelo infinito onde realmente somos o que somos.

 

Via: Veliq Fil

http://veliqs.blogspot.com.br/

Que sábado aquele!

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 #SínteseCristã   #Evangelho
Não discuto a legitimidade e nem a conveniência do feriado “santo”. O que faço é refletir – de preferência em casa, na minha sala de estudos e com minha família – sobre o fato do Jesus Cristo (Homem e Deus) crucificado, morto e ressuscitado.
 
Essas temáticas “Semana Santa” e Páscoa,  em suas dimensões evangélicas,  sempre me prenderam a atenção. Isso, desde a minha infância que, com minha Bíblia católica enorme no colo, com algumas páginas dedicadas às pinturas sacras, foi marcada pela paixão nutrida pelos assuntos bíblicos. Tudo me convidava para a reflexão e, constantemente, brotava perguntas novas que encrencavam meu pai e outros tantos adultos. Eu passava horas pensando sobre o Jesus Cristo que ainda não conhecia bem e sobre o porquê de sua morte, algo que também não entrava com clareza em minha cabeça (a despeito das tantas dúvidas de criança, eu cheguei a pensar em ser padre…). Nos dias da Semana Santa, eu reunia amigos para encenar a crucificação e repetia as palavras de Jesus na cruz (É lógico que eu fazia o papel de Jesus!).
 
Mas o tempo passou e hoje minhas reflexões continuam. Ficaram melhores e mais profundas, eu acho… Contudo, eu penso que aquele olhar e aquela motivação de criança precisam voltar. Sim, aquela motivação sem os óculos de sistemas, desprendida de exigências apologéticas, que não conhece o olhar malicioso de fariseus modernos e sem compromisso com explanações “merecedoras” de aplausos, elogios, curtidas e compartilhamentos. Costumamos gostar dessas coisas…
 
Bom, mas a reflexão rápida que eu quero compartilhar aqui não é sobre a minha paixão de infância. Quero, na verdade, é pensar naquele sábado solene e, provavelmente, sorumbático dos discípulos de Jesus Cristo que, entre a tristeza e a dúvida, entre a esperança e o medo, experimentaram  aquela espera aparentemente ingrata pelo Filho do Homem ou mesmo por uma resposta sobre o fato da cruz (eu creio que alguns tinham esperança e outros desesperança). Ora, “o que será de nós agora”, deve ter perguntado alguém entre aqueles discípulos.
O Filho de Deus repousava numa sepultura significando, então, o fim de tudo. De um lado, tinha-se a presença (e o drama) da morte como fato real e como anúncio de desesperança. Do outro lado, tinha-se a chama da esperança que se mantinha viva pela promessa daquele que, já diante da morte, anunciou a ressurreição e a garantia de vida eterna.
 
Aquele sábado foi um sábado propositalmente paradoxal. Precisava ser assim! O sábado onde Deus permaneceu morto numa sepultura. Isso é estranho, mas foi assim. Um evento tão estranho, imensurável e misterioso como o evento da criação. Entretanto, tão cheio de amor quanto. O mesmo Verbo que havia criado tudo, estava agora enrolado em panos dentro de um sepulcro. Jesus estava realmente morto. Não havia nada para ser provado com relação ao fato de sua morte. Porém, pelo fato de estar morto, aquele que é Deus daria um novo sentido para a morte, subjugando-a, primeiro, para sempre e depois garantindo àquele que crê a Vida Verdadeira e a vida infinita. Ali, a vida surgiria triunfante sobre a morte, definitivamente nova em qualidade e tempo no dia seguinte. Tinha de ser o Autor da Vida ali. Não podia ser outro.
 
Como sabemos (e já experienciamos!), no dia seguinte Jesus ressurge. Aparece vivo. Todo humano e divino. Um paradoxo em Pessoa que, em três dias, apresentou ao mundo mais paradoxos. Todos carregados de Boa Notícia: do fim, fez-se início; do medo, fez-se coragem e ousadia; da tribulação fez-se paz; da injustiça fez-se justiça; da angústia, fez-se alegria incontrolável; daquela que causava espanto e pavor, gerou-se a doçura da vida eterna. Do comedor saiu comida e doçura saiu do forte (Jz 14. 14). Em três dias ninguém foi capaz de decifrar o enigma ou explicar o paradoxo da cruz, mas em três dias, tudo se fez novo para sempre e todos aqueles que são da Luz, se encheram de alegria eternamente.
 
Que sábado foi aquele! O Sabbath como dia de descanso significou um dia de luto e de dúvidas para aqueles que seguiram o Mestre por aproximadamente três anos.
 
Talvez, sua vida esteja inserida nesse tipo de “sábado”, onde a angústia, a dúvida, o luto, a tristeza, a espera, o desamparo, a perplexidade e o horror estão tomando conta de seu coração onde deveria existir paz e descanso. Ora, a palavra para você é obvia: Jesus ressuscitou no terceiro dia! Mas, na obviedade dessa minha resposta, diante de tudo que se fala sobre cristianismo e religião, está a verdade que não só transformou a vida daqueles primeiros discípulos, mas também deu aos seus corações uma paz eterna e uma esperança firme, algo que ninguém podia arrancar de cada um. Se Jesus está vivo, você tem agora um intercessor junto ao Pai (1 Jo 2.1) e nada é impossível. A alegria e a esperança firme estão garantidas, mesmo se houver dias desgostosos. Ninguém poderá desfazer aquilo que aconteceu em três dias. Crer na ressurreição de Jesus Cristo significa viver.
 
“… em verdade vos asseguro: quem ouve a minha Palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5. 24).
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Gabriel Felipe M. Rocha

A VIDA VERDADEIRA

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(Breve ensaio sobre o Reino dos Céus e sobre a Vida Eterna)

#SínteseCristã

Na leitura atenciosa dos quatro evangelhos e na reflexão cautelosa sobre os temas “Reino de Deus” (ou “Reino dos Céus”) e “Vida Eterna” (ou “Vida Verdadeira”), você pode perceber que Jesus apresenta uma visão do Reino de Deus e também um conceito de “vida eterna” (enquanto vida “verdadeira”) que contraria o entendimento de muitos religiosos a respeito desses mesmos temas, Reino e Vida Eterna. Isso, porque a compreensão de muitos cristãos sobre esses dois temas não se desprende do campo metafísico, ou seja, fala-se muito de um céu metafísico e de um reino metafísico, sendo que a proposta de Jesus com relação ao Reino dos Céus e com relação à Vida Eterna é uma proposta para já, imediata, para ser vivida na nossa situação histórica e no nosso tempo finito.
 
Aqui neste singelo artigo (ainda na forma de um ensaio), quero utilizar a expressão “horizontal” e a expressão “vertical” para estabelecer algumas diferenças entre a compreensão puramente metafísica de Reino e de Vida Eterna e a compreensão evangélica de Reino e de Vida Eterna que, ao invés de polarizar-se numa compreensão metafísica (em relação ao que está além de nossa situação e finitude), admite sua dimensão metafísica, mas apela para uma vivência – uma realização – histórica. Adianto que Jesus anunciou o Reino de Deus estabelecendo uma visão horizontal deste Reino e não uma visão vertical deste mesmo Reino. Quando Jesus fala de uma Vida Eterna, Ele está falando muito mais da urgência de uma qualidade de vida segundo o Reino dos céus do que necessariamente um tempo de vida que se concretizará no céu e durará para todo o sempre, mesmo que essa promessa, de fato, exista.
 
Muitos crentes, desde os primeiros séculos da era cristã, se apegaram ao conceito platônico e neoplatônico de “reino” enquanto lugar paralelo ao mundo, digamos, “real”, concreto e imperfeito, sendo, pois, o Reino de Deus um lugar (gr. topos) abstrato, distante, perfeito, imutável e que seria contemplado ainda no porvir. Bom, isso não está errado! De fato o nosso mundo é imperfeito e não precisamos provar isso aqui. As tantas injustiças, maldades, tragédias e tantas outras mazelas confirmam isso. Porém, essa compreensão de Reino com o pé fincado no platonismo proporcionou um dualismo gritante na visão de Reino de Deus e de Vida Eterna. Um tipo de visão que permanece firme em muitas igrejas que geram indivíduos “espiritualizados”, que creem naquilo que é vindouro, mas não conseguem praticar com integridade a justiça, os frutos e as bem-aventuranças do Reino de Deus. Há, assim, “dois mundos”. Um não presta, o outro presta. Ignora o aqui e espera o de lá. A visão de Reino e a noção de viver eternamente davam-se (e ainda se dão), portanto, numa noção verticalizada, ou seja: a partir de uma compreensão de céu (lugar do Reino e ambiente de vida eterna) como “outro lugar” a ser passivamente esperado no fim da história, o que é desmistificado pelo próprio Cristo. Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, afirma nos textos evangélicos que seu reino já chegou, i.é., já existe e está presente dentro de cada crente e entre cada crente (Cf. Lc 17. 21) e, portanto, precisa ser vivido no aqui, enquanto se espera, é claro, a sua completude que será realizada no futuro, no fim da nossa história. A Boa Notícia de Jesus não promete somente a glória futura, mas, antes de qualquer compreensão triunfalista, anuncia a chegada do Reino de Deus como urgência para um mundo carente, injusto, mal e que caminha a passos largos para a perdição. Assim, em vista dessa noção verticalizada, a ideia de “vida eterna”, para muitos cristãos, tem seu valor na esperança de vida contínua (para sempre) que será efetivada ali no que se entende como glória, céu, eternidade, na glorificação do corpo, portanto, após a morte. Porém, o valor que Cristo deu à vida eterna não estava simplesmente na espera, mas na ação antecipada da vida segundo o Reino, evidenciada não só na fé confessada verbalmente, mas na fé confessada por quem tomou a cruz, através das ações daquele indivíduo regenerado, arrependido, justificado pela fé, santo e cheio dos frutos do Espírito.
 
Contudo, eu não quero dizer que essas noções de Reino e de Vida Eterna compreendidas na perspectiva da espera estão erradas. Obviamente não estão! Elas são verdadeiras à luz da Boa Notícia de Jesus Cristo. Ele venceu a morte e nos deu vida abundante nele e essa abundância de vida remete não só à qualidade de vida genuinamente evangélica, mas à espera cristã pelo encontro e permanência eterna com Cristo em sua glória. Assim, nós temos vida contínua pela fé naquele que venceu a morte e, porque Cristo vive, breve virá seu reino em toda plenitude e glória. Um reino que se estabelecerá e existirá para todo sempre.
 
Ademais, o Reino de Deus enquanto proposta já apresentada para a Igreja e a Vida Eterna (Vida Verdadeira) já garantida ao crente (no cumprimento da vontade de Deus e na vida segundo o Reino) sinalizam, pois, a ideia de um Reino real, que não está submetido às categorias temporais e espaciais (como os reinos deste mundo, efêmeros, situados), portanto, um Reino que não pertence a lugares, localizações tangíveis à nossa razão, mas existe para além do espaço e tempo, num “não lugar“, o que traz a ideia de “utopia” (u= não e topos= lugar). Sim, o Reino de Deus é uma proposta utópica com relação à nossa situação mundana e finitude. Ora, utopia aqui não significa “lugar que não existe e que jamais existirá” (mesmo que isso contrarie a ideia do próprio criador do termo, Thomas More) e nada tem a ver com aquilo que jamais poderá acontecer ou que é impossível de ser realizado pois não existe, não é real, é inalcançável, etc. Não, utopia – para nós cristãos – nada mais é que a ideia de que existe sim um Reino, mas inatingível, por agora, em sua plenitude pela simples razão, mas que, a despeito disso, precisa ser vivido agora, aqui, já pelos crentes. A boa notícia evangélica sobre o Reino é esta: o Reino de Deus nos é chegado (está entre nós), não depende de um lugar e deve ser vivido pelos embaixadores “dos céus” – nós, cristãos – através da fé, da adesão séria à mensagem de Cristo, da prática das bem-aventuranças e da frutificação espiritual em cada crente (Gl 5. 22).
 
Assim, afirmamos que o Reino de Deus (que nos descortina a Vida Verdadeira) não pode ser apontado agora como um lugar, um sistema, uma proposta ética (entre as tantas já existentes), etc., pois é eterno. Se quisermos atribuir um lugar ao Reino ou definir onde o Reino de Deus se situa, teremos que afirmar que o reino está submetido a uma situação para poder ser. Mas não é isso que Cristo nos diz. O Reino pertence aos céus e “céus” não aparece nos textos bíblicos necessariamente como um lugar. Não há essa preocupação de imediato em definir o lugar do Reino, mas de proclamar a chegada do mesmo. O que Jesus nos garante é que o reino de Deus existe já entre aqueles que, por fé, o vivem e, assim, se torna concreto na práxis cristã, onde os valores do Céu (absolutos, imutáveis, Bons…) surgem como anúncio de que é, enfim, chegado, o Reino dos Céus e que em breve virá aquele que reinará para todo sempre. Maranata!
 
O Reino de Deus é, assim, o Reino dos Céus, como apresentado pelo evangelista Mateus ao público judeu. Sendo portanto, a “vida eterna” uma qualidade de vida e não necessariamente um tempo de vida, ela recebe o estatuto de vida verdadeira, ou em outras palavras: bem-aventurada (feliz), “eudaimônica” (conforme a noção grega de “felicidade“). No entanto, como já afirmamos aqui, a noção evangélica de “vida verdadeira” não reside apenas na ideia de qualidade de uma vida finita e situada, caracterizada pela bem-aventurança de quem vive os valores do Reino, mas, para além disso, ela traz consigo a noção (e também promessa) de vida que continuará após a morte, portanto, vida que não terá fim, pois experimentará da ressurreição em sua união com Cristo.
 
Jesus também deixa claro que o Reino de Deus não pertence a este mundo, ou seja, sua natureza não é deste mundo (Cf. Jo 18. 36), mas, como já afirmado aqui, ele deve ser estabelecido e vivido aqui. Já! Ora, na oração-modelo (“Pai Nosso”), ensinada por Jesus, fica evidente que o Reino de Deus precisa ser não só anunciado – uma tarefa nossa, da Igreja – mas vivido, praticado e estabelecido através dos valores eternos dos céus. “Venha a nós o teu reino”. Não é uma oração feita a partir de uma compreensão escatológica do Reino. Ou, não é simplesmente isso. Trata-se de pedido que, em sinceridade e verdade, é feito pelos cristãos (nascidos de novo) que não desejam apenas alcançar um reino porvir como premiação final da fé ou como contemplação eterna após uma vida de espera, mas que desejam viver, antes do Grande Dia, o reino de Deus aqui, na frutificação do Espírito e na prática das Bem-aventuranças, o que implica não só o anúncio verbal da chegada do Reino de Deus, mas o anúncio vivido, praticado e provado dos valores do Reino dos céus que são: justiça, amor, misericórdia, pureza de coração, paz, mansidão, etc. (Cf. Mateus 5. 1-12). Valores que só podem ser evidenciados através de uma vida cristã autêntica, frutificada no Espírito (Gl 5. 22).
 
É para isso que quero chamar a atenção aqui. Muitos evangélicos assumiram uma postura verticalizada com relação ao anúncio do Reino. O Reino de Deus costuma ser encarado por muitos cristãos como algo a ser esperado e, portanto, vivido noutro lugar (na glória) de modo, muitas vezes, passivo, sem frutos, caracterizado por anúncios vazios. Muitos cristãos estão esperando o Reino chegar em toques de trombetas, alimentando uma fé que ainda não saiu do campo da subjetividade para se mostrar no campo da intersubjetividade, i. é., vivida com o próximo e não vivida numa relação vertical “eu e Deus, Deus e eu”. O Reino é vivido horizontalmente: “Deus e eu, eu e o próximo, Deus em nós”.
 
Portanto, viver o Reino dos Céus é viver aqui (já!) os valores eternos de Deus (o Absoluto), o que configura, então, a “vida verdadeira”. A vida verdadeira é então essa vida horizontal que enxerga o outro, o próximo através não só do anúncio verbal, mas do encontro de amor e misericórdia. Trata-se de uma vida que enxerga não a si mesmo em relação a Deus numa relação verticalizada, individual, voltada para experiências subjetivas e para um tipo de cristianismo egocêntrico (o que seria já um contrassenso). A fé em Jesus Cristo, a renovação da mente, a vida frutífera definem a vida verdadeira enquanto vida descentralizada de si mesmo e que, portanto, enxerga o outro como “outro eu”. É, então, uma vida de encontro ao próximo em amor, generosidade, justiça e crescimento, por isso, horizontal. Assim, a vida verdadeira enquanto vivência do Reino de Deus é, por sua vez, a vida que vai de encontro ao Deus que podemos chamar de Pai ou mesmo de “meu Pai” Cf. 1 Jo 3. 1; Rm 8.15). A verticalidade do reino se atesta na horizontalidade do reino.
 
Note que todas as bem-aventuranças pregadas por Jesus, todos os dons espirituais e ministérios citados por Paulo e todos os frutos do Espírito Santo registrados também por Paulo indicam que a vida cristã enquanto vida verdadeira (que vive segundo os padrões do reino dos Céus) é uma vida que deságua sempre no outro e nunca vive de cordo com seus próprios interesses (1 Co 13.5). Ora, é esta vida que Jesus chama de “verdadeira” ou eterna, pois estão em conformidade com os valores que são também eternos, imutáveis e absolutos, a saber, valores do Reino de Deus.
 
Sem querer polemizar aqui e já finalizando esta minha primeira reflexão sobre o Reino dos Céus, a “vida verdadeira” não significa de imediato “vida sem fim” ou “vida para sempre”, o que se pensa quando se lê “vida eterna”. Não se trata apenas de viver eternamente. Antes do conceito de vida sem fim, a vida eterna aponta para a realidade do reino, uma vida pautada naquilo que é eterno ou revestida de uma nova perspectiva a partir da fé naquilo que não é deste mundo e que, portanto, não se submete às categorias de espaço e tempo conforme este mundo. A “vida eterna” não é aquela que, a priori, desconstrói a finitude, a efemeridade da nossa existência, mas aquela que dá um novo sentido à nossa existência situada e finita. Vida eterna é uma vida de qualidade segundo os padrões dos Céus! Obviamente, quem a vive – pela fé – participará da glória futura.
 
A vida eterna, é claro, está relacionada com a promessa de Jesus Cristo de vida sem fim, ou simplesmente, a vida de quem, pela fé em Cristo, venceu a morte (passou da morte para a vida). Mas, seu conceito não reside apenas na ideia de vida vindoura e que espera um reino enquanto “lugar”, num porvir. Ora, a vida eterna é aquela que nunca tem fim, mas que também nunca teve início. Se a ortodoxia cristã afirma que merecíamos, antes, a morte, precisamos crer que o que a fé em Cristo nos garante é a vitória sobre a morte, o que implica uma vida que continuará após a morte, i. é., que passará pelo drama da morte, mas que espera (por fé) em Jesus Cristo a ressurreição do corpo. Contudo, a vida eterna (ou vida verdadeira) é a proposta de vida para já. É viver a vida do Reino dos céus aqui no espaço e tempo finitos como proclamação do Reino que virá em sua plenitude e poder na vinda de Jesus Cristo.
 
Viver a vida eterna é possível para aquele que crê em Jesus Cristo e que se arrependeu de seus pecados. Viver os valores do Reino de Deus constitui autonegação, descentralização do ego e tomada de cruz, portanto, não pode ser entendida e nem vivida como um mero tratado ético que caduca na efemeridade de nosso tempo e na pluralidade de nossos dias, assim como os tantos modelos éticos que já foram formulados neste mundo. Viver o reino de Deus é assumir na própria vida – em adesão séria – o pertencimento a Deus e o compromisso com a Palavra de Deus sem medo de perder ou anular a própria vida.
 
Que Deus nos abençoe!
“Deus não somente protege e defende o Reino de Cristo, mas também estende seus limites em todas as direções, e então preserva e transmite-o adiante em progresso ininterrupto até a eternidade. Não devemos julgar sua estabilidade a partir da presente aparência das coisas, mas a partir da promessa, que nos assegura de sua continuidade e de seu crescimento constante” (João Calvino)
Gabriel Felipe M. Rocha

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Gabriel Felipe M. Rocha é professor de História, Filosofia e Ensino Religioso; graduado em História (licenciatura e bacharelado); pós-graduado em Sociologia (lato sensu) na área de Sociologia da Educação; mestre em Filosofia/Ética (stricto sensu). É professor de História de Israel, da Escola Bíblica de Treinamento da Oitava Igreja Presbiteriana de belo Horizonte (EBT).

Crédito da imagem (acima do texto): Blog Veredas da Justiça

Muito perdão, muito amor

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“[…] Você está vendo esta mulher? Quando entrei, você não me ofereceu água para lavar os pés, porém ela os lavou com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Você não me beijou quando cheguei; ela, porém, não para de beijar os meus pés desde que entrei. Você não pôs azeite perfumado na minha cabeça , porém ela derramou perfume nos meus pés. Eu afirmo a você, então, que o grande amor que ela mostrou prova que os seus muitos pecados já foram perdoados. Mas onde pouco é perdoado, pouco amor é mostrado.
 
(S. Lucas 7. 44-47/ NTLH)
 
Está aí um exemplo, entre tantos exemplos bíblicos, de arrependimento verdadeiro, uma resposta de transformação pelo evangelho evidenciada por motivações honestas e por atitudes de adoração.
 
A verdadeira devoção a Cristo (assim como o real arrependimento) é mostrada na gratidão. Lavar os pés do Salvador e derramar ali caros perfumes foram as melhores ações que aquela mulher podia realizar ali, motivada pela gratidão. Foi um serviço prestado com devoção sincera e em caráter de louvor àquele salvador e perdoador. Lucas registrou no trecho acima uma entrega honesta, uma resposta ao evangelho evidenciada por atitudes que chamaram a atenção, mesmo dentro da casa de um fariseu religioso que, contrariando aquilo que era um mero costume, evitou oferecer (ao menos) água para que o Mestre lavasse seus pés. Religiosos costumam não se curvar tão facilmente e evitam o mínimo contato com as poeiras nos pés daqueles que anunciam a Boa Nova. Esses, costumeiramente, acreditam que devem ser servidos ao invés de servir.
 
Mas o serviço cristão é gratidão. É engajamento. É sinal de quem foi alcançado pela graça e envolvido com a misericórdia. É lava-pé constante, é submissão e entrega. Agradar a Deus é como beijar os pés do Salvador e derramar diante dele o melhor de si. Só se faz por gratidão.
***
Gabriel Felipe M. Rocha
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PARA FALAR DE AMOR

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#SínteseCristã

O que ama de verdade é o que pratica amor e não o que promete, fala, canta ou teoriza o amor.

Só podemos falar que Deus é Amor porque tivemos provas (práticas) de seu amor. E só podemos falar de amor com verdade quando praticamos o amor. Ora, nisto seremos conhecidos como discípulos de Cristo: se amarmos uns aos outros (Jo 13.35).

Fora isso, não podemos falar nada. Devemos nos calar! Qualquer um que carrega o título de discípulo só o é de verdade se viver os ensinamentos de Cristo e, viver os ensinamentos de Cristo significa não só experimentar o amor de Deus, mas viver o amor de Deus, o que supõe, em primeira instância, uma descentralização do “eu” constante negação de si, uma tomada necessária da cruz, uma adesão séria à proposta evangélica de Jesus Cristo.

E a boa notícia é esta: Jesus Cristo está vivo! Ele venceu a morte e, com a derrota da morte, nos tornamos livres nele – pelo derramamento de seu sangue – para viver a vida que Ele nos propõe, sem escravidão, sem condenação e com verdadeira adesão. Podemos não só viver eternamente aquela vida prometida para o porvir (Jo 14.2-3), mas podemos viver, agora, a vida de bem-aventurança (Mt 5. 3-12), frutificada no Espírito Santo (Gl 5.22) e evidenciada no amor (Jo 13. 34-35).

Ademais, se nós não tivéssemos provas práticas – experiências – do amor de Deus, não buscaríamos (jamais) a Deus. O amor de Deus se mostrou por nós, crentes, ainda antes da nossa resposta ao chamado do evangelho quando o mesmo Deus que elegeu antes da fundação do mundo (em amor), enviou seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, para morrer a morte que era minha para que eu, então, pudesse ser reconciliado, perdoado, justificado, adotado e, em Cristo, glorificado em sua vinda. E mais: o amor de Deus se mostrou ainda antes da criação quando desejou criar tudo. Tudo que Ele fez era bom. Quando você ama o que faz, faz bem e faz bem porque faz com amor. Assim Deus criou o mundo. Somos, sem exagero, frutos de seu amor. O amor é o Verbo que cria! O amor é o Verbo que se encarna! O amor é, portanto, prática, ação, dinâmica e transformação. O Jesus teórico (ou histórico) não pode salvar ninguém, mas o Jesus, Verbo de Deus, encarnado pode.

Concluindo, só podemos falar do amor de Deus porque Deus nos amou primeiro (1 Jo 4. 19). Porém, precisamos muito mais do que simplesmente falar do amor de Deus, mas provar em atitudes, pensamentos, motivações e posturas o amor de Deus. Como? Amando! Amando o próximo como amamos a nós mesmos. Só podemos provar que somos, de fato, discípulos de Cristo, quando a nossa casa, a nossa comunidade de fé, o nosso local de trabalho, a nossa vizinhança, etc. reconhece que há em nós o amor de Jesus Cristo. Ora, “se alguém diz ‘Eu amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso. Pois ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a quem vê. O mandamento que Cristo nos deu é este: quem ama a Deus, que ame também o seu irmão” (1 Jo 4. 20-21).

 

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Gabriel Felipe M. Rocha

 

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Imagem: “EvangélicoBlog”

Moral cristã e Bem-aventurança (Apenas um ensaio)

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Não dê presentes ou recompensas para seus filhos quando estes agirem corretamente, isto é, quando eles agirem moralmente. Fazer o bem e agir corretamente é OBRIGAÇÃO deles, assim como é DEVER dos pais ensinar o caminho certo, ético e honesto.

Recompensar alguém (principalmente uma criança) por uma boa obra faz com que a ação moral ganhe uma dimensão distorcida, diferente do respeito à lei (uma noção kantiana, inclusive) e distante da ideia do dever. Uma ação só é moralmente boa se for praticada pelo DEVER, ou pelo RESPEITO (temor/ reverência) em relação ao que é correto, ético e bom (antes de sentir amor pelos preceitos, devemos adquirir o respeito aos preceitos e é exatamente assim que deve começar a educação da criança).

O agir bem, sendo recompensado, passa a ser motivado por interesses, pelo puro apetite por ganhar algo em troca através da boa ação. Assim, o agir bem perde todo seu sentido. Não é isso que a Escritura ensina sobre o agir bem. A intencionalidade da ação é o que define a ação como moral e não o simples agir por agir, tampouco o agir para “conseguir” algo. Ora, a ideia de intencionalidade na ação é uma noção genuinamente evangélica. Seremos provados pelas nossas intenções!

Toda ação nossa tem, é claro, uma finalidade. O valor da ação tem seu efeito. Muitos valores e princípios apontam para uma realidade transcendente, para um fim último, para uma ideia perfeita e imutável (aqui eu sou platônico!). Ou seja: muitos valores morais e princípios éticos refletem o que é Bom, Belo e Perfeito, a saber, Deus e Sua Santidade. Porém, a finalidade (ou a intencionalidade) do nosso agir deve ser a própria realização do bem, como fim em si mesmo, pois, de fato, a ação é boa em si por, justamente, refletir valores para além da nossa finitude e situação. Assim, a “recompensa” cristã para o agir bem é a própria vida de bem-aventurança (felicidade) experimentada pelo cristão, mas não como algo procurado por ele no momento do agir. A felicidade do cristão – segundo a narrativa bíblica sobre as bem-aventuranças – reside na própria ação e se efetiva em nós no receber de Deus a aprovação, diante das injustiças, perseguições, escassez e tristezas da vida, porém, não de um modo passivo apenas, mas ativo, isto é, na prática da vida bem-aventurada que sugere, segundo Mateus 5. 1-12, a vida de mansidão, humildade, justiça, misericórdia, paz, santidade, assim como, noutras páginas da Escritura, a vida de honestidade, respeito à lei, trabalho, moderação, etc. A felicidade (grego: “eudaimonía”) como fim da ação é uma realidade, mas que reside na prática da ação boa em si, não sendo algo buscado e desejado antes do agir. Contudo, a eudaimonía perfeita (felicidade plena) nos é prometida no estágio último da nossa redenção, ou seja, na glorificação do corpo, quando nós estivermos diante do Pai, recebendo dele todo consolo e toda a recompensa. Enfim, a vida bem-aventurada (ou feliz) é aquela, segundo a Escritura, voltada para o agir em si, considerando não o que poderá vir em troca, mas somente o valor da ação, cujo fim aponta para o bem do outro e não para o nosso próprio bem. Esta é a vida do salvo, encontrado pela graça.

A bem-aventurança bíblica parte da ideia de uma ação não interessada que busca o interesse do outro e não o próprio interesse, o que Paulo define também como prática de AMOR em 1 Coríntios 13. 5. O amor cristão é esse: doar-se, perder-se e descentralizar-se no encontro com o outro, com o próximo. É um sair de si. Foi isso que Cristo fez na cruz em relação a nós. Ele nos deu vida, a sua vida, em abundância. Mas, para isso, ele descentralizou-se na cruz, experimentando, inclusive, o abandono momentâneo do Pai. Ele não buscou o próprio interesse e, caminhando para o matadouro, afirmou: “a minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 4. 34). Ora, a “minha comida” é a minha necessidade. É a necessidade do meu organismo. Portanto, é uma necessidade existencial. Jesus revelou a finalidade de sua existência encarnada quando afirmou que sua comida era fazer a vontade do Pai.

A bem-aventurança (felicidade) é uma promessa bíblica para os que agem moralmente, com justiça, com misericórdia e bondade. No entanto, a ideia de “felicidade cristã” na prática das bem-aventuranças está longe da noção de “agir bem para atingir outro fim” ou “agir bem como meio para um fim”, sendo os fins da ação alheios ao valor próprio delas. O agir bem ou a ação moral na Escritura é aquela que dá ao cristão, bem-aventurado, justo, bom e misericordioso, o estatuto de feliz porque a sua vida convertida a Deus reflete a reverência, o temor, o respeito aos preceitos de Deus, sendo esses a sua “comida” diária. Ora, se alimentar bem dá a sensação de felicidade e realização.

O agir bem para o cristão, portanto, tem em Deus, a sua recompensa e, assim, a ação moral (ou genuinamente evangélica) não deve procurar aplausos, presentes e nem aprovações humanas. Seu fim já está definido na própria ação boa e quem age conforme a vontade de Deus não age buscando meios para se salvar ou para preencher vazios do ego, mas age porque foi salvo, alcançado pela graça e, agora, é transmissor de vida e de amor como resultado (ou respostas) da sua eleição.

(Gabriel Felipe M. Rocha)

Crédito da foto: Site “Empório do Direito”

O Redentor vive!

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“[…] Quem dera minhas palavras fossem registradas! Quem dera fossem escritas num monumento, entalhadas com um cinzel de ferro e preenchidas com chumbo, gravadas para sempre na rocha! Quanto a mim, sei que meu Redentor vive e que um dia, por fim, ele se levantará sobre a terra. E, depois que meu corpo tiver se decomposto, ainda assim, em meu corpo, verei a Deus! […]”.

(Jó 19. 23-26/ NVT).

As exclamações de Jó, diante da fala (acusadora) de seus amigos comunicam algumas verdades a respeito da redenção.

1) Diante da acusação (seja mentirosa, seja verdadeira, seja do amigo, seja do inimigo), nós precisamos de um Redentor que se levante e que venha nos justificar diante de Deus.

2) O eleito de Deus clama e exclama seu desejo (do profundo de sua alma) de ver o Redentor e – por intermédio dele – ver a face de Deus.

3) O clamor angustiante e esperançoso de Jó se cumpriu na pessoa de Cristo – a Rocha – que, em seu próprio corpo, teve registradas todas as nossas palavras, ações e sentimentos, para sempre, esculpidas com o ferro e chumbo na cruz. “Para sempre” porque diz respeito do perdão pleno e da segurança eterna previstas no ato salvífico de Jesus Cristo que, tendo consumado sua obra expiatória, pôde dar ao mortal a viva esperança de não apenas ver a face de Deus (como uma mera contemplação intelectual ou como uma experiência puramente subjetiva), mas de estar diante de Deus, mesmo que o corpo experimente, antes, a decomposição (morte). O novo corpo verá a Deus, pois a morte foi vencida e os clamores da alma experimentaram, agora, da graça divina e da justificação em Cristo.

4) “Sei que meu Redentor vive” – Certeza! Uma viva esperança que só é possível porque, antes, houve graça e misericórdia por parte de um Deus Transcendente, Absoluto, Santo, mas também pessoal e que, por ser pessoal, decidiu dar o primeiro passo na reconciliação, considerando, pois, a nossa corrupção e miséria. Ambas totalmente passivas e merecedoras da acusação e da condenação.

O Redentor vive! E, porque Ele vive, podemos crer no amanhã!

 

Gabriel Felipe M. Rocha

Pensando o aborto

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Afinal de contas, quando inicia a vida humana?

É possível afirmar com exatidão o momento que “surge” a vida num embrião ou num feto? É possível pensar nisso? A partir de quando o feto é “vida”? Qual o risco – moral –  que se assume ao precisar o “início da vida” num embrião ou mesmo num feto? Por que não afirmar que o embrião (e também o feto) é um ser que, em sua estrutura, aparece já como “vida em potencial”? Ora, interromper uma “vida em potencial” não seria, pois, o mesmo que interromper uma vida, tendo assim sérias implicações morais? Por que a reivindicação da legitimidade do aborto só aparece no campo do “direito da mulher“? Seria, então, um direito de quem é vivo em detrimento do não-direito de quem não é vivo? Mas como definir – com exatidão – que o embrião não é vida? Pautar a questão do aborto na não-vida do embrião não seria uma forma de oferecer uma “neutralidade moral” ou mesmo uma justificativa moral para a prática do aborto?

 

Nenhum grupo pró-aborto responde imperiosamente a estas questões, pois é aqui que a questão sobre o aborto enquanto “direito da mulher” se esbarra na pluralidade de posições e definições. E, geralmente, essas posições se fundamentam em orientações também plurais, diversas que seguem convicções e conceituações de uma variedade de visões do mundo e do ser humano, considerando sempre uma postura moral. E, no caso da mulher, pretensa “dona” do feto, há sempre o embasamento em uma “moral subjetiva” para se pensar o “direito da mãe”. Ora, o “direito da mãe” se fundamente em questões que envolvem apenas a mãe, seus sentimentos, suas questões, suas situações e isso, necessariamente, anula a dignidade do feto, pois, se não é  uma “pessoa formada” que está em questão, ele não tem algum direito a ser pensado ou considerado, portanto, o que deve ser colocado à mesa são os direitos da mulher e, nesse caso, procura-se um escape moral para legalizar o aborto.

Vale observar que a afirmação da personalidade do embrião humano é sempre um ato moral ou parte sempre de uma conceituação moral. Sim, pois, o conhecimento médico e científico, conforme a postagem “O Aborto na Contemporaneidade”[1], do blog “Bioética2012@FAJE”, não pode dar e, tampouco, garantir uma resposta acabada, já que brotam de complicados fatos e experiências que permeiam áreas dos valores, da religião, da medicina, da filosofia.

Portanto, não é só a religião que tem que dar esse salto metafísico. Não é o cristianismo apenas que “coloca” metafísica no problema do aborto. Se a ciência médica, a antropologia, a sociologia quiser dar uma definição do que o feto é, ou do que é a vida (e também se o feto é ou não uma pessoa), precisam dar um salto metafísico, pois devem definir, antes, o que é o ser e o que é a moral. Ora, isso escapa dos limites de suas ciências.

Conforme a observação de Junges, a discussão sobre o aborto está, em geral “reduzida às batalhas jurídicas, ou a descrição dos fatos sociológicos, descurando a reflexão ética que é a base primeira de qualquer bioética […]”. Para ele, “ficar situado na esfera do “pode” ou “não pode” do jurisdicismo, significa anular a dimensão simbólica do agir, tarefa peculiar da reflexão ética. O aborto é e sempre será uma forma vulgar de tirar a vida do ser humano”. O aborto é e sempre será uma forma de pensar o homem ou mesmo o “humano” a partir de uma antropologia “manca” que não considera a estrutura humana para além do corpo ou que pretende desvalorizar o corpo-próprio enquanto região fundamental para a manifestação do humano, da pessoa enquanto tal. O feto é um projeto de corpo humano e olvidar isso, é ignorar o fantástico processo de vida humana.

A Igreja deve participar desses debates. O grande erro da Igreja ou das igrejas (enquanto organizações) é se afastar de temas como o aborto. A Igreja deve entrar no fórum das discussões antropológicas, bioéticas e mesmo ideológicas sobre o aborto, porque ela deve – numa postura definida em favor da vida – condenar a tortura e o assassinato em quem quer que seja, não importando qualquer contexto que envolva apenas a mulher ou mesmo uma patologia do feto. Sim, pois a Igreja compreende que o ser humano na sua estrutura integral (isto é, corpo e alma/espírito) é para ser respeitado, nunca conspurcado.

Mas o grande problema das ideologias pró-aborto é o de pensar o ser humano de forma modo fragmentado ou impondo uma antropologia dualista que sugere um afastamento da região corporal da definição de pessoalidade (que já envolve aspectos metafísicos). O cristianismo em sua verdade confessional sempre irá condenar toda experiência de cunho científico que coloca a vida em risco ou que pensa o ser humano sem considerar sua humanidade ou a integralidade de seu ser (ora, o homem não é só corpo. O embrião não é apenas uma massa corporal que pode ser descartada, pois ali há potencialidade de vida, o que envolve corpo e alma viventes). Os cristãos compreendem que o corpo humano é sagrado e, por isso, a Igreja é visceralmente contra a prática do abordo porque feto é um projeto de vida em formação.

Na doutrina cristã, o direito de nascer é fundamental. E se a Igreja defende o feto, não se trata de ideologia, mas de preceitos evangélicos que jamais abrem mão do direito à vida. É por causa do direito que um feto humano tem de nascer (e podemos pensar o feto como pessoa em potencial e que, por ser potencialmente capaz de se tornar uma pessoa, tem direito de viver) que a Igreja condena o aborto e, como no caso mais recente, a legalização do aborto. Ademais, nas palavras do autor católico José Fernandes de Oliveira, o feto está na mulher, mas a mulher não é dona daquele feto, pela mesma razão que o piloto não é dono do passageiro que voa com ele”.

Portanto, abortar é negar um futuro ser humano a desenvolver-se, e a isso, não temos o direito, até mesmo porque acreditamos que o direito de viver é fundamental. E isso não faz parte apenas da fé cristã. O feto é realmente projeto de ser humano, um ser humano em potencial, não importa se tem menos ou mais de três meses. O feto é potencialmente uma pessoa.

Todo argumento pro-aborto gira em torno da tentativa de diminuir o valor do embrião a partir de uma noção antropológica: “o embrião não é uma pessoa”. Portanto, todo discurso em favor do aborto tem como polo a ideia de pessoalidade (ideia que está necessariamente incluída no discurso moral ou ético da mãe, a suposta “dona” do feto).

O grande problema do discurso “o feto não é pessoa” ou mesmo da ideia de que até três meses o feto pode ser abortado (assassinado!) é a tentativa de legalizar o aborto a partir de uma noção antropológica no mínimo dualista. Explico:

Todo o discurso em favor do aborto se fundamenta numa diferenciação ou distanciamento radical entre o corpo (a massa corpórea formada por uma estrutura celular, porém sem consciência e a região psicológica, sede da consciência. Trata-se de uma separação (quase estupida) entre corpo e consciência.

Ora, para os abortistas, a pessoa só pode ser definida se existir uma consciência, logo, uma criança de dois ou três anos que não tem uma consciência formada, mas em formação, pode ser morta, assim como aquela criança que nasce com problemas patológicos relacionados à região neurológica, psíquica etc. Mesmo uma pessoa idosa que “perdeu” sua consciência e suas capacidades ou um adulto que por alguma patologia teve sua região neurológica afetada, pode ser morta de acordo com essa noção antropológica que separa a ideia de pessoa colocando um muro entre a massa corporal (em formação) e a consciência que só poderá ser formada e desenvolvida em dependência da massa corporal em formação. Ou seja: se torna um absurdo abortar uma criança antes dos três meses porque não tem uma consciência, pois, para existir a consciência e a pessoa é necessário que o feto se desenvolva após os três meses.

Como apontou Igor Miguel em um artigo, toda a discussão sobre o aborto, portanto, “vai na direção do conceito de ‘pessoa’. Basicamente este é o argumento: um embrião ou um aglomerado celular, sem consciência, não pode ser considerado uma “pessoa”, logo, nesta fase o aborto seria eticamente viável. Para alguns ou algumas militantes pela legalização ou descriminalização do aborto, por “pessoa” entende-se aquele indivíduo biologicamente humano que desenvolveu consciência ou autonomia”.

Essa diferenciação ou mesmo separação (absurda) entre a estrutura biológica e a psicológica é o que podemos entender como Antropologia dualista, um fundamento para se pensar o aborto como uma “possibilidade moral”. Aliás, as neurociências e as ciências médicas conseguem,a final, definir quando exatamente o embrião se torna eticamente “livre” do assassinato “moralmente aceito” por se tratar de um feto com menos de três anos? Como é possível afirmar a potencialidade pessoal de um feto a partir de X meses ou semanas? Todo salto que é dado para se definir o que é a pessoa, neste caso, se torna um salto metafísico e, quando a Igreja levanta sua voz para falar da dignidade do feto e a noção de dignidade do humano, ela é repudiada por exatamente tratar de valores metafísicos.

Junges discorre bem sobre a questão do feto enquanto pessoa em potencial. Primeiro que, para Junges, A mentalidade abortista aparece quando o aborto toma-se um direito a exigir e uma proposta de solução para outros problemas” (problemas próprios da mulher, portanto, alheios ao feto). Segundo ele “esta mentalidade luta por leis sempre mais liberalizantes e é o principal desafio ético para os cristãos”, como se vê agora no final do ano de 2016 em nosso país.

Para Junges, ainda, “no momento em que se reivindica um direito ao aborto, existe uma tendência a privatizar a questão e reduzi-la ao ponto de vista jurídico: ser a favor ou contra a lei do aborto. É necessário introduzir a perspectiva ética que abre novos horizontes, aponta para elementos essenciais da dignidade humana e convivência social, e convidar os contendentes a discutir a questão em outro patamar – o ético – e superar a sua redução ao jurídico”[2]. O que se vê é exatamente a tentativa de discutir o aborto na esfera jurídica, polarizando a questão ali. E o grande problema é que, geralmente, os discursos em favor do aborto partem da realidade afetiva/ emocional, social, econômica e patológica da mulher e, nessas fundamentações, o feto não tem algum “discurso de defesa” a não ser aquele em favor da vida ou do direito à vida que nós, cristãos (principalmente), devemos defender.

Bom, a primeira questão a discutir é se o aborto pode ser reivindicado como um direito, pois, “todo direito defende, promove e produz bem para a pessoa e a sociedade. Ora o aborto elimina uma vida humana e, portanto, é um mal. O mal pode, se muito, ser tolerado, mas não exigido como conteúdo de um direito a ser reivindicado. Por outro lado, nunca um direito pode ser exigido às custas de outro ser humano, mesmo estando apenas em formação” (J. R. Junges/ artigo: “Aborto, um direito a se exigir?”/ Revista Perspectiva Teológica/ FAJE, p. 397).

O fundamento dos direitos humanos é que o ser humano nunca seja tomado como meio, mas sempre como fim. O ser humano é fim em si mesmo e não meio e essa noção deve ser aplicada ao feto enquanto “humano em potencial” ou enquanto “pessoa em potencial”. O assassinato do feto é, portanto, a sua redução a meio, em vista de um fim se considerarmos apenas o discurso da mulher como aquela que tem “direito de abortar”. Como pensa Junges, “o aborto não pode ser privatizado como um direito subjetivo, porque está implicado um bem fundamental – a vida humana – para a convivência social”.

Bom, de fato o embrião não é ainda pessoa humana em sentido pleno, ou seja: a definição de “pessoa” envolve a capacidade de relação do indivíduo com seu mundo e com o outro e tem necessariamente um coroamento ético (podemos falar disso noutra postagem). Mas, vale observar que, a partir da noção plena de pessoa, o bebê recém-nascido e mesmo a criança antes do uso da razão não são “pessoas”, mas “pessoas em formação” ou potencialmente pessoas. Contudo, considerando a estrutura do “humano”, os fetos e as crianças antes da consciência formada são seres humanos, pois elas têm em suas estruturas a potencialidade para a consciência e para a pessoalidade. Assim, os direitos não se adquirem pelo fato de nascer, mas enquanto ser humano.

A pretensão de determinar cientificamente o momento em que o feto passaria a ser considerado “humano” é, segundo Junges, um falso problema. Sim, pois a ciência não tem parâmetros para definir exatamente este momento. Junges pondera: “suponhamos que seja possível precisar este momento em que o embrião torna-se ser humano. Isto significaria que momentos antes poder-se-ia eliminar o embrião, sem faltar ao respeito ao ser humano, enquanto que momentos depois cometer-se-ia um delito grave. O respeito ao ser humano necessitaria de uma precisão de relógio. É necessário respeitar o ser humano também em situações confusas e ambíguas”[3]. Portanto, a ciência poderá dar elementos, pistas e noções Que não passariam do campo da teoria), mas a resposta definitiva a esta questão depende de pressupostos antropológicos, porém, em vista de uma antropologia integral (e não dualista, isto é, que separa drasticamente o biológico do psicológico). E, além disso, a resposta para a questão do aborto depende de pressupostos éticos e, nesse caso, a luta e a voz da Igreja precisam ser conhecidas e ouvidas.

Gabriel Felipe M. Rocha

Referências:

Igor Miguel/ “Aborto e a Fronteira do Humano“/ Via Rev. Ultimato;

JUNGES, J. Roque Sj/ “Aborto: um direito a ser exigido?”/ Rev Perspectiva Teológica.

Discussões de Bioética/ 2012/ FAJE/ Iran Gomes Brito/Germano Neto.

[1]

[2]

[3]

SOBRE O ABORTO


“Tenho X anos e já tive rês meses” é uma frase de protesto que apresenta uma verdade: o feto é potencialmente uma pessoa.

 

Todo argumento pro-aborto gira em torno de uma questão, a saber, diminuir o valor do embrião a partir de uma noção antropológica: o embrião não é uma pessoa. Portanto, todo discurso em favor do aborto tem como polo a ideia de pessoalidade (ideia que está necessariamente incluída no discurso moral ou ético da mãe, a suposta “dona” do feto).

 

O grande problema do discurso “o feto não é pessoa” ou da ideia de que até três meses o feto pode ser abortado (assassinado!) é a tentativa de legalizar o aborto a partir de uma noção antropológica no mínimo dualista. Explico:

 

Todo o discurso em favor do aborto se fundamenta numa diferenciação ou distanciamento radical entre o corpo (a massa corpórea formada por uma estrutura celular, porém sem consciência. Ora, para os abortistas, a pessoa só pode ser definida se existir uma consciência, logo, uma criança de dois ou três anos que não tem uma consciência formada, mas em formação, pode ser morta, assim como aquela criança que nasce com problemas patológicos relacionadas à região neurológica, psíquica etc. Mesmo uma pessoa idosa que “perdeu” sua consciência e suas capacidades ou um adulto que por alguma patologia teve sua região neurológica afetada, pode ser morta de acordo com essa noção antropológica que separa a ideia de pessoa colocando um muro entre a massa corporal (em formação) e a consciência que só poderá ser formada e desenvolvida em dependência da massa corporal em formação. Ou seja: se torna um absurdo abortar uma criança antes dos três meses porque não tem uma consciência, pois, para existir a consciência e a pessoa é necessário que o feto se desenvolva após os três meses.

 

Como apontou Igor Miguel em um artigo, toda a discussão sobre o aborto, portanto, “vai na direção do conceito de ‘pessoa’. Basicamente este é o argumento: um embrião ou um aglomerado celular, sem consciência, não pode ser considerado uma “pessoa”, logo, nesta fase o aborto seria eticamente viável. Para alguns ou algumas militantes pela legalização ou descriminalização do aborto, por “pessoa” entende-se aquele indivíduo biologicamente humano que desenvolveu consciência ou autonomia”.

 

Essa diferenciação ou mesmo separação (absurda) entre a estrutura biológica e a psicológica é o que podemos entender como Antropologia dualista, um fundamento para se pensar o aborto como uma “possibilidade moral”. Aliás, as neurociências e as ciências médicas conseguem,a final, definir quando exatamente o embrião se torna eticamente “livre” do assassinato “moralmente aceito” por se tratar de um feto com menos de três anos? Como é possível afirmar a potencialidade pessoal de um feto a partir de X meses ou semanas? Todo salto que é dado para se definir o que é a pessoa, neste caso, se torna um salto metafísico e, quando a Igreja levanta sua voz para falar da dignidade do feto e a noção de dignidade do humano, ela é repudiada por exatamente tratar de valores metafísicos.

 

Junges discorre bem sobre a questão do feto enquanto pessoa em potencial. Primeiro que, para Junges, A mentalidade abortista aparece quando o aborto toma-se um direito a exigir e uma proposta de solução para outros problemas” (problemas próprios da mulher, portanto, alheios ao feto). Segundo ele “esta mentalidade luta por leis sempre mais liberalizantes e é o

principal desafio ético para os cristãos”, como se vê agora no final do ano de 2016 em nosso país.

 

Para Junges, ainda, “no momento em que se reivindica um direito ao aborto, existe uma tendência a privatizar a questão e reduzi-Ia ao ponto de vista jurídico: ser a favor ou contra a lei do aborto. É necessário introduzir a perspectiva ética que abre novos horizontes, aponta para elementos essenciais da dignidade humana e convivência social, e convidar os contendentes a discutir a questão em outro patamar – o ético – e superar a sua redução ao jurídico”. O que se vê é exatamente a tentativa de discutir o aborto na esfera jurídica, polarizando a questão ali. E o grande problema é que, geralmente, os discursos em favor do aborto partem da realidade afetiva/ emocional, social, econômica e patológica da mulher e, nessas fundamentações, o feto não tem algum “discurso de defesa” a não ser aquele em favor da vida ou do direito à vida que nós, cristãos (principalmente), devemos defender.

 

Bom, a primeira questão a discutir é se o aborto pode ser reivindicado como um direito, pois, “todo direito defende, promove e produz bem para a pessoa e a sociedade. Ora o aborto elimina uma vida humana e, portanto, é um mal. O mal pode, se muito, ser tolerado, mas não exigido como conteúdo de um direito a ser reivindicado. Por outro lado, nunca um direito pode ser exigido às custas de outro ser humano, mesmo estando apenas em formação” (J. R. Junges/ artigo: “Aborto, um direito a se exigir?”/ Revista Perspectiva Teológica/ FAJE, p. 397).

 

O fundamento dos direitos humanos é que o ser humano nunca seja tomado como meio, mas sempre como fim. O ser humano é fim em si mesmo e não meio e essa noção deve ser aplicada ao feto enquanto “humano em potencial” ou enquanto “pessoa em potencial”. O assassinato do feto é, portanto, a sua redução a meio, em vista de um fim se considerarmos apenas o discurso da mulher como aquela que tem “direito de abortar”. Como pensa Junges, “o aborto não pode ser privatizado como um direito subjetivo, porque está implicado um bem fundamental – a vida humana – para a convivência social”.

 

 

Bom, de fato o embrião não é ainda pessoa humana em sentido

pleno, ou seja: a definição de “pessoa” envolve a capacidade de relação do indivíduo com seu mundo e com o outro e tem necessariamente um coroamento ético (podemos falar disso noutra postagem). Mas, vale observar que, a partir da noção plena de pessoa, o bebê recém-nascido e mesmo a criança antes do uso da razão não são “pessoas”, mas “pessoas em formação” ou potencialmente pessoas. Contudo, considerando a estrutura do “humano”, os fetos e as crianças antes da consciência formada são seres humanos, pois elas têm em suas estruturas a potencialidade para a consciência e para a pessoalidade. Assim, os direitos não se adquirem pelo fato de nascer, mas enquanto ser humano.

 

A pretensão de determinar cientificamente o momento em que

o feto passaria a ser considerado “humano” é, segundo Junges, um falso problema. Sim, pois a ciência não tem parâmetros para definir exatamente este momento. “Suponhamos que seja possível precisar este momento em que o embrião torna-se ser humano. Isto significaria que momentos antes poder-se-ia eliminar o embrião, sem faltar ao respeito ao ser humano, enquanto que momentos depois cometer-se-ia um delito grave. O respeito ao ser humano necessitaria de uma precisão de relógio. É necessário respeitar o ser humano também em situações confusas e ambíguas”. Portanto, a ciência poderá dar elementos, pistas e noções Que não passariam do campo da teoria), mas a resposta definitiva a esta questão depende de pressupostos antropológicos, porém, em vista de uma antropologia integral (e não dualista, isto é, que separa drasticamente o biológico do psicológico). E, além disso, a resposta para a questão do aborto depende de pressupostos éticos e, nesse caso, a luta e a voz da Igreja precisam ser conhecidas e ouvidas.

 

Referências:

Igor Miguel/ “Aborto e a Fronteira do Humano”/ Via Rev. Ultimato;

J. Roque Junges Sj/ “Aborto: um direito a ser exigido?”/ Rev Perspectiva Teológica.

 

Gabriel Felipe M. Rocha

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A cruz

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A mensagem da cruz humilha e confunde qualquer homem sobre a terra.

Pois, até mesmo o fato de alguém tomar a sua cruz representa não um ato de coragem ou bravura (algo que possa ser admirado pelos homens), mas sinaliza o quanto ela é necessária para quem a tomou.

A cruz denuncia o pecado, a vaidade e a rebeldia. Por isso ela é necessária. Isso é humilhante para nosso ego e insuportável para a nossa natureza.

A cruz atrapalha a falsa paz.

A cruz é ultrajante para a alegria artificial.

A cruz ofende a dignidade postiça do homem.

A cruz desconstrói a moralidade fingida.

A cruz afronta a religiosidade.

A cruz revela aquilo que a dissimulação tenta esconder.

A cruz não negocia nada. Não facilita nada. Não permite reservas.

A cruz não dá chance nenhuma para aquilo que insiste viver.

A cruz, portanto, não é um convite agradável! Não são todos que a podem tomar e não são todos os que podem compreender a sua mensagem.

Na cruz foi cumprida uma sentença e na sua amargura encontra-se a doçura. Da morte gerou-se vida e da sentença de morte gerou-se perdão e justiça.

Ela é o convite do Salvador. É só a partir da cruz que podemos ser, de fato, discípulos de Jesus Cristo.

 

***

Gabriel Felipe M. Rocha

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